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América Latina vai precisar de 56 mil novos comissários até 2045: o que uma escola de aviação de 27 anos aprendeu para formar em escala

Projeção da Boeing aponta demanda de longo prazo por tripulantes na região. No CEAB, o ensino a distância levou a teoria a qualquer cidade, e a prática ficou concentrada numa imersão presencial na selva

Alunos CEAB

Projeção da Boeing aponta demanda de longo prazo por tripulantes na região. No CEAB, o ensino a distância levou a teoria a qualquer cidade, e a prática ficou concentrada numa imersão presencial na selva

A aviação comercial vai precisar de mais de 2,4 milhões de novos profissionais no mundo até 2045, segundo a projeção de longo prazo que a Boeing divulgou em julho. Mais de 1 milhão serão comissários de bordo. Na América Latina, a conta chega a 136 mil pessoas: 38 mil pilotos, 42 mil técnicos de manutenção e 56 mil comissários, a função com mais vagas projetadas entre as três.

Para quem forma essa mão de obra, o número muda a pergunta. Não basta encher uma turma em São Paulo; é preciso chegar a quem mora longe, sem perder a parte da formação que só existe com presença. O CEAB, escola de aviação civil com 27 anos de mercado, forma comissários nas modalidades presencial e a distância, com uma etapa prática concentrada que o aluno de outro estado resolve numa viagem de dois dias.

1. Uma demanda que não é de temporada

Contratações na aviação costumam vir em ondas. A LATAM contratou mais de 700 comissários e pilotos no Brasil em 2025 e abriu no fim do ano passado um processo seletivo de tripulantes com contratações previstas ao longo de 2026. A projeção da Boeing olha para outro horizonte, o de duas décadas, e indica que a necessidade de gente não depende de um ano bom. Para uma escola, isso significa planejar a capacidade de formação de modo contínuo, e não apenas nos meses em que as companhias anunciam vagas.

“Durante muito tempo, quem queria voar e morava longe de São Paulo precisava se mudar antes mesmo de saber se a profissão era para ele. O ensino a distância inverteu essa ordem: a pessoa estuda de onde está e só viaja para a parte que exige presença”, diz Salmeron Cardoso, diretor e CEO do CEAB.

2. O que o ensino a distância resolve

No modelo a distância, a teoria acompanha o aluno em qualquer cidade, e a decisão de investir na carreira deixa de depender de uma mudança. Isso amplia o público possível e reduz o custo de entrada para quem ainda está testando a profissão. Também muda quem consegue chegar: gente que trabalha em outra área, mora no interior ou não pode passar meses longe de casa.

3. O que não cabe na tela

A escala tem um limite claro. Combate ao fogo, marinharia e sobrevivência se aprendem com o corpo, e é por isso que o CEAB concentrou essa parte numa etapa presencial: a selva é uma imersão para os alunos, em que eles também aprendem a fazer fogo e abrigo, a usar a bússola e a preparar armadilhas. Para a turma da modalidade a distância que acaba de concluir a etapa prática, a formação fecha com um Open Day opcional, no dia seguinte à selva: palestras sobre o mercado de trabalho e aulas de postura, etiqueta e apresentação pessoal, num hotel de alto padrão.

“A projeção de demanda é boa notícia, mas não baixa a régua. A companhia continua escolhendo quem chega pronto, e a escola que forma em escala precisa cuidar para que a prática não fique mais fraca por causa disso”, afirma o diretor.

4. A empregabilidade faz parte do produto

As companhias deixam claro que a formação conta na hora da inscrição. No processo da LATAM, o curso profissionalizante de comissário de voo aparece entre os requisitos, ao lado de ensino médio completo, passaporte válido, Certificado Médico Aeronáutico e vacina contra febre amarela. Processos seletivos recentes também têm solicitado documentos como o CCT, Certificado de Conhecimentos Teóricos, e o certificado de treinamento prático. Inglês ou espanhol contam como diferencial na LATAM e são requisito, em nível de conversação, no banco de talentos da Gol.

“Escola de aviação não cresce vendendo matrícula. Cresce quando o aluno formado é chamado, porque é isso que traz o próximo aluno”, diz Salmeron.

Informar bem antes da matrícula também faz parte do negócio. A Lei 13.475, de 2017, a Lei do Aeronauta, limita a jornada no transporte aéreo regular a 9 horas em tripulação simples, 12 horas em tripulação composta e 16 horas em tripulação de revezamento, e assegura ao menos 10 folgas por mês, das quais pelo menos duas num sábado e domingo consecutivos. A mesma lei reserva a profissão a brasileiros natos ou naturalizados. Empresas brasileiras em serviço aéreo internacional podem ter comissários estrangeiros a bordo, desde que eles não passem de um terço dos comissários da aeronave. Quem entra no curso sabendo dessas regras escolhe a profissão com mais clareza.

A lição vale para qualquer negócio de formação que queira crescer sem perder reputação: a escala vem do que pode ser ensinado a distância, e a reputação, do que não pode. Na aviação, a parte que não cabe na tela é justamente a que o aluno vai usar no dia mais difícil da carreira.