Como a doença de Parkinson afeta o coração?

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Doença de Parkinson e o coração: uma ligação que vai além dos tremores.

Quando se fala em doença de Parkinson, os primeiros sintomas que vêm à mente costumam ser os tremores, a lentidão dos movimentos e a rigidez muscular. No entanto, a ciência mostra que a doença vai muito além do comprometimento motor e pode atingir diferentes sistemas do organismo, incluindo o coração e os vasos sanguíneos.

Considerada a segunda doença neurodegenerativa mais comum do mundo, atrás apenas da doença de Alzheimer, a enfermidade afeta milhões de pessoas e compromete significativamente a qualidade de vida. Ao mesmo tempo, as doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no planeta. Nos últimos anos, estudos têm demonstrado que essas duas condições estão mais conectadas do que se imaginava.

O neurologista Marco Orsini explica que, embora seja classificada como uma doença neurológica, o Parkinson pode provocar importantes repercussões cardiovasculares ao comprometer o sistema nervoso autônomo, responsável por controlar funções involuntárias, como frequência cardíaca, pressão arterial e ritmo dos batimentos.

“Quando pensamos na doença de Parkinson, geralmente lembramos dos tremores, da lentidão dos movimentos e da rigidez muscular. Mas hoje sabemos que o Parkinson vai muito além desses sintomas. Embora seja conhecido como uma doença do cérebro, ele pode afetar várias partes do organismo, incluindo o coração e os vasos sanguíneos”, afirma.

Segundo a cardiologista Renata de Faria Modenesi, essa relação também ocorre porque Parkinson e doenças cardiovasculares compartilham fatores de risco importantes, como envelhecimento, diabetes, inflamação crônica e estresse oxidativo. Além disso, quando o sistema nervoso autônomo deixa de funcionar adequadamente, surgem alterações que afetam diretamente a circulação e o funcionamento cardíaco.

“Uma das manifestações mais frequentes é a disfunção autonômica cardiovascular. O organismo perde parte da capacidade de regular adequadamente a pressão arterial e a frequência cardíaca, favorecendo episódios de tontura, desmaios, quedas e oscilações importantes da pressão ao longo do dia”, explica Renata.

Entre os sintomas mais comuns estão queda da pressão ao se levantar rapidamente, tonturas, sensação de desmaio, alterações da pressão após as refeições e intolerância aos esforços. Alguns medicamentos utilizados no tratamento do Parkinson também podem favorecer episódios de pressão baixa, reforçando a necessidade de acompanhamento médico contínuo.

Além das alterações funcionais, estudos mostram que pessoas com Parkinson apresentam maior frequência de mudanças estruturais no coração, como espessamento da musculatura cardíaca, alterações no relaxamento entre os batimentos e remodelamento cardíaco, fatores que podem favorecer o desenvolvimento de insuficiência cardíaca.

Outro ponto de atenção são as arritmias. Embora ainda não exista consenso de que o Parkinson aumente significativamente o risco de todas elas, alguns pacientes podem apresentar alterações detectadas no eletrocardiograma, como a redução da variabilidade da frequência cardíaca, importante marcador de comprometimento do sistema nervoso autônomo. Já medicamentos mais antigos, como pergolida e cabergolina, podem provocar alterações nas válvulas cardíacas, exigindo acompanhamento periódico com ecocardiogramas.

A endocrinologista Júlia Reis destaca que o controle das doenças metabólicas também exerce papel fundamental na evolução do Parkinson. “Condições como diabetes, obesidade e resistência à insulina favorecem processos inflamatórios e de estresse oxidativo que podem agravar tanto as doenças cardiovasculares quanto a progressão de doenças neurodegenerativas. Por isso, controlar os fatores metabólicos faz parte de uma abordagem integral do paciente”.

A especialista acrescenta que a avaliação hormonal e metabólica deve fazer parte do acompanhamento clínico. “O tratamento não pode estar voltado apenas para os sintomas motores. O controle da glicemia, da função tireoidiana, do peso corporal e dos demais fatores de risco cardiovasculares contribui para preservar a saúde global e reduzir complicações ao longo da evolução da doença”.

As descobertas mais recentes mostram ainda que o próprio coração pode ajudar no diagnóstico precoce do Parkinson. Isso acontece porque o acúmulo da proteína alfa-sinucleína, característica da doença, não ocorre apenas no cérebro, mas também nos nervos responsáveis pelo controle cardíaco. Em alguns casos, essas alterações surgem anos antes dos sintomas motores. Um dos exames capazes de identificar esse comprometimento é a cintilografia cardíaca com MIBG, que avalia a integridade desses nervos e pode fornecer pistas importantes para o diagnóstico precoce.

Para os especialistas, essas evidências reforçam que o Parkinson deve ser encarado como uma doença sistêmica. Sintomas como tonturas, palpitações, desmaios, quedas frequentes e intolerância ao esforço físico não devem ser ignorados e exigem uma avaliação integrada entre neurologistas, cardiologistas e endocrinologistas.

“O reconhecimento precoce dessas alterações permite um tratamento mais adequado, reduz complicações e contribui para uma melhor qualidade de vida dos pacientes”, concluem os especialistas.

Sobre os médicos

Renata de Faria Modenesi é cardiologista, mestre em Ciências Cardiovasculares pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atua na rotina da Emergência do Hospital Niterói D’Or e é gestora da Linha de Cuidados da Unimed Leste Fluminense.

Marco Orsini é médico neurologista, pós-doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Baylor University, além de coordenador do Ambulatório de Doenças Neuromusculares Raras do Hospital Niterói D’Or.

Júlia Reis é médica endocrinologista, com formação em Endocrinologia pelo Instituto de Endocrinologia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, e atua na rotina médica da Emergência Adulto do Hospital Niterói D’Or.

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