O CFO precisa entrar na sala da decisão de inteligência artificial
A conta da IA entrou na rotina de quem controla o custo de tecnologia em dois anos, mas a escolha entre contratar e construir ainda é tomada como se fosse técnica. Para Guilherme Friol, fundador da Vircos, quem vai responder pelo custo precisa estar na mesa, e saber o que perguntar

A conta da IA entrou na rotina de quem controla o custo de tecnologia em dois anos, mas a escolha entre contratar e construir ainda é tomada como se fosse técnica. Para Guilherme Friol, fundador da Vircos, quem vai responder pelo custo precisa estar na mesa, e saber o que perguntar
Em dois anos, o gasto com inteligência artificial passou a fazer parte do dia a dia de quem controla o custo de tecnologia nas empresas. Segundo o relatório State of FinOps 2026, da FinOps Foundation, 98% dos 1.192 profissionais de gestão financeira de nuvem ouvidos já administram gastos com IA, contra 63% em 2025 e 31% em 2024. A Gartner estima que sistemas agênticos consomem de 5 a 30 vezes mais tokens por demanda do que um chatbot convencional. Com a cobrança por consumo, a fatura passa a acompanhar o uso, e não o contrato.
Para Guilherme Friol, fundador da Vircos e executivo com 20 anos de carreira em tecnologia, a conta cresceu e a governança financeira sobre ela, não. O descompasso começa na composição da mesa. A cena se repete em comitês de tecnologia: a área de negócio apresenta o problema, o fornecedor apresenta a demonstração, a tecnologia avalia a integração e a decisão sai com uma mensalidade aprovada. Quem entende de custo total, de amortização e de cláusula contratual, o financeiro, entra depois, quando a fatura muda de tamanho.
“Comprar ou construir inteligência artificial é decisão financeira disfarçada de decisão técnica. Quem entende de amortização, de custo total em três anos e de risco contratual precisa estar na sala, porque é ele quem vai explicar essa conta em 2028”, afirma Friol.
O que muda quando a pergunta é financeira
A decisão técnica pergunta o que a ferramenta faz. A decisão financeira pergunta três coisas que a demonstração não responde. Primeiro, o custo total em três anos, incluindo a cobrança por consumo que parte do mercado passou a somar às assinaturas, a integração que raramente fica pronta no prazo da demonstração e a migração quando o modelo é descontinuado. Segundo, o que fica como ativo: um sistema construído com engenharia pode entrar no balanço como ativo intangível e forma um time; uma licença anual entra como despesa e sai na renovação. Terceiro, o risco contratual: o que a empresa pode fazer se o fornecedor mudar o preço, o comportamento do modelo ou encerrar o serviço.
A primeira pergunta é a que Friol transforma, nos processos de decisão que conduz, em um custo total de propriedade em janela de 36 meses, com sete linhas, da mensalidade contratada ao custo de saída. As outras duas são as que costumam ficar sem dono quando o financeiro não está na sala.
“Quando o CFO entra, a pergunta muda de ‘qual ferramenta’ para ‘o que essa decisão custa em três anos e o que ela deixa de ativo no balanço’. Só essa mudança já elimina boa parte das compras erradas”, diz Friol.
O comitê com a pessoa certa
Para Friol, a saída não é trocar o critério técnico pelo financeiro, e sim colocar os dois na mesma mesa antes da assinatura. O comitê de inteligência artificial que funciona tem a área de negócio, que conhece a regra; a tecnologia, que conhece a arquitetura; e o financeiro, que conhece o tempo. Cabe ao financeiro perguntar pela amortização, que mostra como o custo do que foi construído se distribui ao longo da vida útil do sistema; pelo custo por transação em escala, que define o orçamento do terceiro ano, e não o do primeiro mês; e pela cláusula de saída, que diz o que a empresa leva, e quanto paga, se trocar de fornecedor.
Friol delimita o argumento: para funções de commodity, como transcrição e leitura de documentos, a licença continua sendo a compra certa, e o CFO na sala vai confirmar isso rápido, porque o custo total é baixo e o risco de troca é pequeno. O peso da cadeira financeira aparece nas decisões em que a regra de negócio vai morar dentro do sistema: ali, a mensalidade é a parte menor da conta.
Estar na sala não basta
Colocar o financeiro na mesa resolve a composição do comitê. Não resolve o repertório de quem senta nela. E o gasto não vai esperar: na pesquisa trimestral da consultoria Grant Thornton com 229 líderes de finanças nos Estados Unidos, feita em agosto de 2026, 84% esperam aumentar o gasto com inteligência artificial nos próximos 12 meses. Na edição anterior, a própria consultoria observava que muitas empresas já têm governança sobre risco e conformidade, mas não sobre a criação de valor desses investimentos.
Na leitura de Friol, a lacuna não é técnica, e por isso não se resolve delegando à área de tecnologia.
“O CFO não precisa saber como o modelo funciona. Precisa saber como a conta é cobrada, o que fica com a empresa e o que acontece quando o fornecedor muda. Isso vale para toda a diretoria, e é o que mais falta hoje na mesa de decisão”, diz Friol.
A conta de 2028
O motivo para mudar a mesa agora é o calendário. A empresa que assina contratos de inteligência artificial em 2026 vai explicá-los em 2028, quando, na avaliação de Friol, os agentes já estarão em processos críticos. Antes disso, a Gartner projeta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica sejam cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controles de risco inadequados. O CFO que entrou na sala em 2026 sabendo o que perguntar vai apresentar uma conta que sabe explicar. O que entrou só em 2028 vai apresentar uma despesa que não sabe explicar.



