Como a disparada do alumínio e as tarifas antidumping mexem com o custo das obras no Brasil

Os preços do alumínio na London Metal Exchange (LME) entraram em forte rali nas últimas semanas, impulsionados pela escalada do conflito no Oriente Médio, que atingiu diretamente grandes fundições na região e criou um “gargalo” logístico em torno do Estreito de Ormuz. Em um dos pregões mais recentes, o contrato de três meses chegou a subir perto de 4%, tocando máximas não vistas em quase quatro anos e refletindo o temor de um choque de oferta prolongado, já que produtores do Golfo, responsáveis por cerca de 9% da produção global, enfrentam dificuldades para escoar o metal. Relatórios de mercado mostram que parte das linhas de produção já foi desligada preventivamente e que o alumínio se tornou o metal industrial com melhor desempenho no período, depois de avançar até 10% desde o início das hostilidades.

Enquanto isso, no Brasil, o governo reforçou a proteção à indústria de base com a adoção de novas medidas antidumping sobre produtos vindos da China. Decisão recente do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) estabeleceu direitos antidumping definitivos, por até cinco anos, sobre agulhas hipodérmicas e sobre laminados planos de aço carbono a frio, inclusive galvanizados ou revestidos de alumínio, importados do país asiático. As medidas, articuladas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), somam-se a dezenas de ações de defesa comercial já em vigor e miram coibir práticas desleais de preço que pressionam as siderúrgicas e transformadores nacionais.

Na prática, esse choque é simultâneo. De um lado, a escalada das cotações internacionais do alumínio; de outro, tarifas adicionais sobre produtos de aço e revestimentos de alumínio criam um cenário desafiador para toda a cadeia da construção civil. Dados compilados por plataformas como TradingEconomics apontam que os futuros do alumínio saltaram quase 5% em um único dia, aproximando-se de máximas de quatro anos, em meio ao fechamento parcial de capacidade em grandes produtores do Golfo e à possibilidade de restrições adicionais em países fornecedores de bauxita. Em relatórios da Argus Media, analistas já trabalham com cenários em que o alumínio supere a marca de 4.000 dólares por tonelada, caso o bloqueio logístico persista.

É justamente nesse ponto que entra a visão de quem lida com o alumínio na ponta dos projetos. Engenheiro civil pós-graduado em Engenharia de Esquadrias de Alumínio e Fachadas Envidraçadas, Gustavo Medeiros Lyra atua há mais de 22 anos na indústria de sistemas de alumínio e é diretor comercial da Alumes Esquadrias de Alumínio. “Quando o preço do alumínio dispara na LME, isso não é um problema abstrato para a pequena empresa: é o caixilho da janela, a fachada envidraçada e a porta de entrada da loja do bairro que ficam mais caros de um mês para o outro, comprimindo a margem de construtoras e serralherias de pequeno e médio porte”, afirma o especialista.

Relatórios especializados indicam que, mantido o bloqueio logístico no Oriente Médio, analistas já trabalham com cenários em que o alumínio supere a marca de 4.000 dólares por tonelada na LME, patamar próximo ao recorde histórico de 2022. Estimativas de consultorias como a CRU apontam que o mercado caminha para um déficit de oferta, e que os preços estariam ainda mais altos se a demanda global não estivesse moderada em alguns segmentos industriais. “Para o pequeno empreendedor, não importa se o motivo é a guerra ou o câmbio: o que ele enxerga é a planilha estourando, porque cada janela, cada porta em alumínio está custando mais para sair da fábrica”, resume Gustavo.

No mercado interno, a pressão já aparece nas estatísticas. Levantamento publicado pelo Investing.com com dados da Reuters mostra que o alumínio acumula alta de cerca de 18% no ano, com prêmios regionais subindo ainda mais do que o contrato de referência. A Bloomberg Línea relata que futuros do metal chegaram a avançar 6% em um único pregão, após dois grandes produtores confirmarem ataques a suas fundições, e alerta para o risco de escassez se o transporte no Estreito de Ormuz não for normalizado. “Isso bate diretamente no custo da esquadria, do vidro e de todos os acessórios metálicos; o impacto chega ao orçamento do apartamento, da sala comercial, do hotel e até do hospital”, diz o diretor da Alumes. 

Com experiência em negociação com fornecedores internacionais, inclusive chineses, e em implementação industrial com práticas de Lean Manufacturing, Gustavo defende que a resposta das pequenas e médias empresas não pode ser apenas “repassar” o aumento. “Tem hora em que o mercado não aceita simplesmente um reajuste de 15% ou 20% na esquadria; se o empreendedor não olhar para dentro da fábrica e cortar desperdício de alumínio, de vidro, de tempo de retrabalho, vai perder competitividade”, afirma. Na Alumes, ele cita o uso intensivo de sistemas integrados de gestão (Hábil Empresarial) e softwares de otimização de corte de alumínio e vidro (CEM, GlassCutPro) como ferramentas para reduzir perdas e ganhar eficiência.

Os projetos que ele liderou ajudam a ilustrar esse raciocínio. No desenvolvimento de portas em ACM (Aluminum Composite Material) de grande formato, produto que trouxe até 25% de economia em relação a portas de madeira de alto padrão, a otimização de matéria-prima foi decisiva para viabilizar a solução mesmo em ciclos de alta do alumínio. Já na implantação de uma unidade fabril dentro da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, projeto que chegou a produzir 1.500 sistemas de alumínio por mês e reduziu a reincidência criminal entre os internos, o desafio foi combinar custo competitivo, impacto social e gestão eficiente de recursos em um ambiente altamente regulado. “Esses casos mostram que é possível inovar, reduzir custo e ainda entregar mais valor, mesmo em cenários de insumo caro”, explica.

Para pequenas e médias empresas de esquadrias, marcenarias metálicas e construtoras regionais, a combinação de commodities voláteis e tarifas antidumping pesa diretamente no orçamento das obras. Segundo Gustavo, negócios desse porte normalmente trabalham com margens apertadas e cronogramas rígidos; qualquer variação brusca no custo do alumínio, dos vidros e dos sistemas de fixação pode consumir o lucro de um empreendimento inteiro, se não houver mecanismos de proteção. “Uma obra que foi orçada há seis meses, sem cláusula de reajuste, hoje pode estar praticamente no zero a zero por causa da alta dos insumos”, alerta.

Além da adoção de sistemas integrados de gestão e de softwares de otimização de corte de alumínio e vidro, as estratégias que ele observa e aplica no dia a dia estão a revisão de contratos com cláusulas de reajuste atreladas a índices de insumos, a antecipação de compras em momentos de alívio de preços e a diversificação de fornecedores e ligas de alumínio, sem sacrificar desempenho técnico. “Não dá para controlar o preço na bolsa, mas dá para controlar quanto se joga fora dentro da fábrica. Quem domina processo e tecnologia sofre menos quando o insumo sobe”, diz.

A mensagem para o pequeno empreendedor da construção civil é clara: acompanhar o noticiário de commodities e de política comercial deixou de ser um luxo para virar ferramenta de sobrevivência. “Se o dono da empresa de esquadrias entender como uma rota marítima fechada do outro lado do mundo ou uma resolução publicada em Brasília mexe com o custo da janela que ele entrega amanhã, ele consegue negociar melhor, precificar com mais segurança e evitar surpresas no caixa”, conclui Gustavo.

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